Os Árabes e a Filosofia
      
Não devemos nos envergonhar de admirar a verdade, nem de obtê-la seja lá de onde vier, ainda que tenha vindo de povos bem distantes de nós e de comunidades tão diferentes, pois não há nada mais fundamental do que a verdade para quem busca a verdade, pois esta não despreza e nem diminui quem a profere e nem quem a traz. Ninguém é aviltado pela verdade, ao contrário, todos são enobrecidos pela verdade. Se pretendemos dar completude à nossa espécie - já que a verdade está nisso  -  então é bom adotarmos neste livro, o que tem sido nosso hábito em todos os temas: trazer aquilo que foi dito pelos antigos, num enunciado completo, de acordo com os meios mais diretos e pelo procedimento mais fácil para quem quer adotar  esse caminho,complementando aquilo que eles não disseram, num enunciado completo, seguindo o costume da língua e o uso do tempo atual, na medida de nossa capacidade, apesar da deficiência que pode vir a ocorrer devido à impossibilidade de nos estendermos num discurso que solucionasse os nós mais complexos e ambíguos.                                                                                Al-Kindi. Séc. IX e.c. A Filosofia Primeira

                   

                      A recepção da filosofia e da ciência grega no emergente mundo árabo-islâmico foi parte de uma recepção de conhecimentos mais ampla que abarcou saberes da India, Pérsia, Egito, China e das civilizações mesopotâmicas, a partir do séc VIII e.c., estabelecendo novos paradigmas na evolução da história do pensamento. No caso da filosofia e ciência gregas, tanto as primeiras transformaram paradigmas do mundo árabo-islâmico, como os filósofos de língua árabe deram novos contornos à interpretação dos sistemas filosóficos da antiguidade, ampliando-os e desenvolvendo-os. As principais condições que permitiram ao mundo árabe grafar a filosofia em língua árabe, foram dadas pelo encontro do mundo muçulmano com a filosofia de língua grega, já nos primeiros anos do islã. A extensa produção dos principais autores entre os séculos IX d.C./ III H. e XIII d.C./ VII H.  deu nova fisionomia à filosofia, chegando a unir, por exemplo, o aristotelismo ao platonismo pensamentos aparentemente irreconciliáveis em sistemas de grande envergadura.
                
Ao período de tradução e recepção da filosofia grega ao mundo árabo-islâmico, em que se destacaram os nomes de Hunayn Ibn Ishaq, Al-Kindi e Al-Farabi, seguiu-se a sistematização da filosofia em língua árabe realizada por Ibn Sina (Avicena), levando a falsafa ao seu momento mais otimista e acabado. Por sua vez, crítica e revisão, seguiram-se a esse período, por meio das obras de Ibn Rushd (Averróis) e de Ibn Khaldun, completando o ciclo da produção da falsafa no período clássico do islã. O impacto deste segundo período provocou revisões epistemológicas de toda ordem, colocando a falsafa como elemento constitutivo do pensamento medieval latino, a partir do século XIId.C e fundamento do pensamento iluminacionista em terras mais orientais do mundo islâmico. As dimensões de efetuação da presença de um corpus greco-árabe na Europa, a partir do séc. XII d.C., devem ser investigadas à luz de novos caminhos para a compreensão da emergência da filosofia moderna e suas relações com a falsafa. Os desdobramentos de tal produção, tanto no mundo árabo-islâmico, como no ambiente de língua latina, obriga um retorno crítico aos textos clássicos dos principais autores.

                 Nos dias atuais, correntes de pensamento aparentemente tão diversas na Europa e em países asiáticos têm, na maior parte dos casos, suas raízes nos pensadores de língua árabe desse período. Filosofia, ciência, mística e religião são temas que permeiam suas obras e ajudam a compreender a evolução da história do pensamento universal, além dos estreitos e distorcidos limites que a noção de pensamento ocidental e oriental impõe. Estudarmos a filosofia entre os árabes desmonta paradigmas e permite uma visão unificadora da história do pensamento universal. Esperamos que as informações contidas neste espaço virtual, auxilie aos que, assim, desejam reformar suas idéias e, consequentemente, reformar o mundo em que se vive e pensa.


                                                                                        Miguel Attie Filho - Abril 2010
                                                                               Acesse Curriculum Lattes                                                                           

 
Licença Creative Commons AVISO: O site Falsafa - Filosofia e História do Pensamento tem seus escritos licenciados com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada com base na obra disponível em www.falsafa.com.br. Podem estar disponíveis permissões adicionais no âmbito desta licença em filosofia@falsafa.com.br . AVISO: O uso deste website só é permitido para fins escolares e pessoais, sendo expressamente proibido a comercialização de suas partes sob qualquer modo ou pretexto. Asseguramo-nos o máximo possível de que seu conteúdo é de domínio público ou legalmente autorizado para publicação, mas não nos responsabilizemos pelas opiniões alheias e de outros websites acessíveis por meio de hiperligações. As publicações, informações, links e imagens tem seus direitos reservados de acordo com a legislação vigente de Direitos Autorais, Código Civil e Lei da Criminalidade na Internet. Denuncie o plágio ou mau uso da internet, entre em contato filosofia@falsafa.com.br        
  Site Map